Na década de 1940, em meio à Segunda Guerra Mundial, Hendrich Kurt, um jovem alemão, deixou a Europa para fugir do conflito. Sensível, músico, artesão e mecânico de alta precisão, ele tinha aversão à guerra e uma grande paixão pela aviação — especialmente pelo voo a vela, modalidade muito difundida na Alemanha.
Por uma dessas coincidências do destino, Kurt chegou ao Brasil e se estabeleceu em Bauru, justamente no momento em que a cidade acabava de inaugurar seu Aeroclube. O relevo favorável e o clima quente e ensolarado encantaram Kurt, que passou a ver ali o lugar ideal para desenvolver o voo sem motor.
Em 1942, ele fixou residência definitiva em Bauru. Trouxe na bagagem as plantas de um planador Zoegling e um passaporte suíço. Seus conhecimentos chamaram a atenção dos fundadores do Aeroclube, que o convidaram a ajudar na formação da escola de pilotos.
Com o apoio dos entusiastas locais, Kurt chamou seu cunhado, o projetista suíço Hans Widmer, para ajudá-lo a transformar Bauru em um polo do voo a vela. Juntos, começaram a fabricar planadores nas oficinas do Aeroclube.
No início, os planadores eram rebocados por automóveis. Pouco tempo depois, passaram a ser lançados por aviões monomotores, alcançando cerca de 500 metros de altura antes do voo livre.
Ainda em 1942, Kurt construiu o planador Zoegling “Arildo Soares”, feito inteiramente com material nacional. Era um planador de asa alta, sem cabine, com o piloto exposto ao vento. Seu primeiro voo aconteceu em 5 de setembro de 1942, e ele ficou conhecido como “Canguru”, tornando-se um símbolo do voo a vela em Bauru.
No mesmo ano, formou-se a primeira turma da Escola de Planadores, com 48 pilotos. A fama da escola cresceu rapidamente, atraindo inclusive, em 1945, alunos da Escola de Aeronáutica de La Paz, na Bolívia.
Outros planadores históricos também surgiram sob sua orientação, como o Flamingo, em 1944, e o Spalinger, construído em 1953 — uma verdadeira obra de arte que ainda voa nos céus de Bauru.
Graças à dedicação de Hendrich Kurt e Hans Widmer, o Aeroclube de Bauru se consolidou como um dos berços do voo a vela no Brasil.
Até hoje, sua memória é preservada com carinho, por meio da Prova Kurt, competição anual de voo a vela, e da Sala Kurt, mantida no hangar do Aeroclube.
Créditos pelo texto : ELSON AVALONE